A Biblioteca de Alexandria não queimou — foi desfinanciada
A História Mais X, 73 segundos
Isso é verdade?
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A Biblioteca de Alexandria foi destruída num grande incêndio
Falso
Não houve um evento único de destruição. O que os historiadores reconstroem é um declínio de séculos por perda de financiamento e de patronagem, começando em 145 a.C., quando Ptolemeu VIII expulsou os estudiosos estrangeiros. A biblioteca continua aparecendo nos registros DEPOIS do incêndio de Júlio César, em 48 a.C. — ou seja, sobreviveu ao evento que se costuma apontar como o que a destruiu.
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Júlio César queimou a Biblioteca de Alexandria em 48 a.C.
Impreciso
Houve um incêndio durante o cerco de César, mas o que ardeu foi um depósito de rolos perto do porto, não a instituição. O quanto se perdeu é disputado entre os próprios autores antigos: Plutarco afirma que tudo queimou, Dião Cássio fala em muitos livros, e outros sequer mencionam a biblioteca ao narrar o incêndio.
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Os árabes queimaram a Biblioteca de Alexandria em 641
Falso
É a versão mais repetida e a mais refutada pelos historiadores. Quando a conquista árabe chegou a Alexandria, não há evidência de que ainda existisse acervo a ser queimado — a instituição havia se esvaziado séculos antes.
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A Biblioteca de Alexandria tinha 500 mil rolos
Não confirmado
Os números vêm de fontes antigas e podem ser exagero: fala-se em cerca de 490 mil rolos na biblioteca principal e 42,8 mil no Serapeu, a filial. Nenhum inventário sobreviveu. O que se pode dizer é que as fontes antigas registram esses números, não que o acervo os tivesse.
O que aconteceu
A cena do grande incêndio que destruiu a Biblioteca de Alexandria numa noite nunca aconteceu. O que os historiadores reconstroem é um declínio lento, de séculos, por perda de financiamento. Em 145 a.C. Ptolemeu VIII expulsou os estudiosos estrangeiros, e a biblioteca perdeu quem a fazia funcionar. Sob Roma, o apoio passou a ser irregular. O incêndio de Júlio César, em 48 a.C., atingiu um depósito de rolos perto do porto, não a instituição — que continua aparecendo nos registros depois disso. Aureliano destruiu o bairro por volta de 272 d.C. e Diocleciano arrasou o que restava em 297. O Serapeu, biblioteca-filial, caiu em 391, mas não há evidência de que ainda houvesse livros ali. E a versão mais famosa de todas, a da queima pelos árabes em 641, é refutada pelos historiadores: quando chegaram, não havia o que queimar fazia séculos.
O detalhe que fecha a história
O detalhe que fecha a história: a biblioteca continua aparecendo nos registros DEPOIS do incêndio de César. Ou seja, ela sobreviveu ao evento que todo mundo acha que a destruiu. O que ela não sobreviveu foi a trezentos anos de orçamento minguando. Você também achava que tinha sido num incêndio só? 👀
As imagens, e de onde vieram
21 pranchas. Todas em domínio público ou Creative Commons, com autoria registrada — é o mesmo material que aparece no vídeo.
Ambrose DudleyPublic domain · via Wikimedia Commons
Hermann GöllPublic domain · via Wikimedia Commons
Luigi MayerPublic domain · via Wikimedia Commons
Vincenzo CamucciniPublic domain · via Wikimedia Commons
Antonio Tempesta (Italy, Florence, 1555-1630)Public domain · via Wikimedia Commons
Gary Todd from Xinzheng, ChinaCC0 · via Wikimedia Commons
O. Von CorvenPublic domain · via Wikimedia Commons
Mazapan3210CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons
Carole Raddato from Frankfurt, GermanyCC BY-SA 2.0 · via Wikimedia Commons
Gary Todd from Xinzheng, ChinaCC0 · via Wikimedia Commons
Autoria não registradaCC0 · via Wikimedia Commons
UnknownCC0 · via Wikimedia Commons
Wolfgang SauberCC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons
Buckinghamshire County Museum, Helen Hyre, 2016-03-13 10:50:42CC BY 2.0 · via Wikimedia Commons
JebulonPublic domain · via Wikimedia Commons
Daniel MayerCC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons
Cornelius de BruynPublic domain · via Wikimedia Commons
Christies.comPublic domain · via Wikimedia Commons
Senu, son of PemuPublic domain · via Wikimedia Commons
WikimediaCC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons
O. Von CorvenPublic domain · via Wikimedia Commons
Créditos e licenças
Atribuição exigida pelas licenças das imagens e da trilha, como consta no arquivo de publicação do episódio.
Música: "Lightless Dawn" Kevin MacLeod (incompetech.com), CC BY 4.0
Fontes
- World History Encyclopedia (Library of Alexandria)
- Britannica (Library of Alexandria)
- HISTORY (What Destroyed the Library of Alexandria?)
- Wikipédia EN (Library of Alexandria)
Material
Notas de produção (5)
- Os números de rolos são de fontes antigas e podem ser exagero. Fala-se em 490 mil na biblioteca principal e 42,8 mil no Serapeu; 500 mil é o número mais repetido. O roteiro diz "as fontes antigas falam em", que é o que se pode afirmar — nunca "a biblioteca tinha".
- O quanto o incêndio de César destruiu é disputado entre os próprios autores antigos. Plutarco diz que tudo queimou; Dião Cássio fala em muitos livros; outros não mencionam a biblioteca. O consenso moderno é que ardeu um depósito perto do porto. O roteiro segue o consenso moderno e não repete Plutarco.
- As datas de Aureliano (c. 272) e Diocleciano (297) são aproximadas, e não se sabe se a biblioteca ainda existia como instituição nessas alturas. O roteiro diz que eles destruíram o bairro e o que sobrou, sem afirmar que destruíram a biblioteca.
- A queima pelos árabes em 641 é tratada como refutada — é a posição das fontes consultadas, não uma opinião do canal.
- A cena 16 mostra o sítio do Serapeu como ele é hoje, com prédios modernos de Alexandria ao fundo. É o lugar real; a legenda da ficha pública diz isso.
As palavras exatas do vídeo
A Biblioteca de Alexandria não queimou num incêndio. Essa cena nunca aconteceu. Egito, terceiro século antes de Cristo. Os faraós gregos querem toda a sabedoria do mundo num lugar só. Navio que atraca no porto tem os livros copiados à força. As fontes antigas falam em quatrocentos e noventa mil rolos. Mas o fim dela não tem fogo. Tem orçamento. Ano cento e quarenta e cinco antes de Cristo. Ptolemeu Oitavo expulsa os sábios estrangeiros. A biblioteca perde quem a fazia funcionar. Depois vem Roma. E o dinheiro passa a chegar quando chega. Júlio César, quarenta e oito antes de Cristo. Um incêndio no porto queima um depósito de rolos. Não a biblioteca. E aí a coisa piora devagar. Aureliano destrói o bairro inteiro. Diocleciano arrasa o que sobrou. Em trezentos e noventa e um, cristãos derrubam o Serapeu. Mas não há prova de que ainda houvesse livros lá. A versão mais famosa é a dos árabes queimando tudo. Os historiadores refutam essa inteira. Quando eles chegaram, não havia o que queimar fazia séculos. A maior biblioteca do mundo antigo não morreu de fogo. Morreu de falta de verba. Comenta se você acreditava no incêndio. No próximo: o relógio de pulso já foi coisa de mulher. Segue o @curtaahistoria.
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